quinta-feira, maio 18, 2006

Ego em crise de estilo


Sigo inquieto.
Não com o mundo.
Hoje estou inquieto comigo mesmo.
Ando levantando cedo, saindo para correr, mais tempo e distância do que o necessário. Ando fugindo dos meus pensamentos. Mas nem sempre dá certo.
O fato é que ando dormindo melhor e tenho conseguido manter um incrível bom humor até o final da tarde. Então, após o trabalho, a cabeça começa sua rotina de quilômetros de exercícios e continua assim até que o corpo caia exausto.
Apesar de tudo estar, aos poucos, encontrando seus lugares, têm coisas antigas que insistem em pular para fora dos nichos onde tento, há anos, guardá-las. Não exatamente escondê-las, mas deixá-las esquecidas.
Sou uma pessoa com um grau de auto-estima satisfatório. Mas tenho minhas inseguranças, meus fantasmas. Todos temos. Tenho minhas inquietações estéticas, meus dramas de imagem, minhas distorções.
No atual projeto de vencer a possível depressão, voltei ao elaborado processo de escolher minhas roupas com peculiar esmero todas as manhãs. Tentativa evidente de afagar o amor próprio e me convencer de que está tudo bem. Funciona. Sinto-me mais feliz quando me acho bem vestido. Sinto-me mais sexy quando acho que estou vestindo a calça certa e o sapato ideal. Mas esse processo é meu. Quero dizer, começa e acaba em mim. Não envolve os outros, não é para os outros. Bem, sim, é claro, elogios me envaidecem. Mas ultimamente ando me incomodando um pouco mais do que o normal com os olhares silenciosos.
Vejam bem, não quero bancar o inocente. E entendam que eu não uso nada demais, apenas abuso um pouco na ousadia mediana dos homens, coisas simples como aproveitar um belo ida de sol para usar calça e camisa brancas e uma jaqueta vintage de veludo amarelo. Sapatos forrados de cortiça para arrematar. Mas ao andar pelas ruas recebo olhares de zoológico. E eu trabalho num bairro “fashion”, onde as pessoas interpretam personagens cada vez que saem de seus escritórios. O que esperar de um bairro que tem sua própria calçada da fama?
E talvez seja um problema meu, e talvez eu erre feio na escolha do figurino e as pessoas tentem me dizer isso. Sei lá.
As reações são engraçadas. Mulheres me olham como quem olha um ave do paraíso. Homens me olham como quem olha uma página de revista. Homens gays me olham com certo desprezo ou com certo desejo. Opa, já deixei o ego assumir o controle.
Mas sejamos francos, a questão é mesmo de ego. Meu ego.
E, sem dúvida, me parece claro que o mundo aceita e assume parâmetros de bonito por mera comodidade cultural. E as pessoas são condicionadas a achar alguma coisa sobre o que eu visto, simplesmente porque eu uso os códigos da estética com algum talento. E quem sabe as pessoas não saibam a diferença entre as roupas e a pessoa. E será que eu sou bonito ou só uso roupas bonitas, um óculos de sol bonito e um corte de cabelo correspondente ao que se convencionou achar moderno?
E de repente o fato de eu usar barba e ter pernas de quem corre faz de mim aquilo que para alguns se convenciona ser um homem sexy?
Então, afinal, eu sou um homem bonito e sexy ou só correspondo à imagem que um homem bonito e sexy deveria ter?
E será que eu não quero ser um homem bonito e sexy? Ou será que é exatamente isso que eu quero, independente do que eu esteja vestindo? E será que as pessoas não estão interessadas em saber se eu sou um cara legal? Ou será que eu quero não quero que elas saibam? Vai ver eu quero ser inteligente, bonito e sexy, não necessariamente nessa ordem e não necessariamente para todo mundo.
Paranóico, percebem?
E eu me vejo vítima da minha própria concepção de mim mesmo. Eu me criei um monstro!!!
Conflitos pacíficos de ego e alter-ego.
Auto-estima precisa, às vezes, de referencial externo. Precisa de confirmação. De umas mais que outras.
Talvez eu não saiba lidar muito bem com alguns elogios. Talvez eu sinta falta de outros elogios com os quais, é bem possível, também não soubesse lidar.

Sei exatamente por que tudo isso.
E não há nada a fazer a esse respeito.
Amanhã quero usar uma camisa nova, com flores lilás. Para combina com o rosto bronzeado das corridas no sol da manhã. Amanhã é aniversário de namoro. E isso merece o melhor de mim mesmo.
E eu também mereço.

2 Comentários:

Blogger Alessandra disse...

Lutti, você sabe melhor que todo mundo que nós também somos o que vestimos. Porque escolhemos nossa roupa baseados em quem queremos ser e acreditamos que somos. E querer ser alguma coisa já não é estar mais perto de ser? Quem se vê como bonito e sexy não parece já mais bonito e sexy? Já disse a sabedoria de Agrado: uma pessoa é mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que sonhou para si mesma. E pela descrição da sua roupa (que eu achei über chic) o que você mostra é, realmente, uma pessoa que veio ao mundo em turnê. Especial, com brilho, que sempre vai ser notada.

Sorte e saúde, que tudo o mais se arranja.

19/5/06 11:32  
Anonymous Anônimo disse...

Nem vem! Tu é gostoso e sabe disso...

19/5/06 13:36  

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